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Eduardo Calvo, do IPCC, comenta sobre Importância dos inventários municipais de GEE

Conversamos com Eduardo Calvo*, do IPCC, sobre os desafios para a região em termos de ação climática, a importância dos inventários de GEE para os municípios e para as agendas internacionais de desenvolvimento. Confira a entrevista integral abaixo.

Poderia comentar brevemente sobre alguns aspectos regionais a serem considerados para a ação climática?

Os ecossistemas dos múltiplos países refletem uma grande diversidade cultural, étnica e de biodiversidade e isso faz com que não possamos ter uma solução aplicável a todos os contextos. A situação das altas Montanhas dos Andes não é a mesma que a das Ilhas Tropicais do Caribe, tampouco como a situação dos países que são de clima temperado, como o Chile e a Argentina, e em contraste com aqueles que são tropicais, como somos a maioria. Além disso, estamos presentes em dois oceanos – o Atlântico e o Pacífico –, e isso faz com que tenhamos toda uma diversidade cultural e institucional. Portanto, temos que encontrar fatores que não se tornem comuns.

 Poderia comentar sobre a Revisão da Metodologia do IPCC e seus impactos aos municípios?

Em 2019, tivemos a oportunidade de concluir um trabalho que vem há dois anos e que realmente começou no período anterior (desde 2014), quando se observou que as metodologias aprovadas pelo IPCC em 2006 já exigiam uma atualização, principalmente porque a tecnologia e a ciência avançaram e surgiram novas tecnologias, algumas delas emissoras de gases de efeito estufa e também temos agora métodos melhores para estimar e isso não pode ser feito com o método tradicional de melhoria contínua. Então, o que era necessário, chamamos de refinamento, no entanto, muitos dos aspectos que já existem desde 2006 são mantidos e persistem como foram dados em 2006 continuam e persistem da mesma forma, tal e como foram estabelecidos no mesmo ano.

O que sucedeu foi que tivemos a oportunidade de melhorar muitos aspectos. Se vamos falar dos aspectos urbanos das mudanças climáticas, teríamos que excluir algumas áreas: a indústria não tem uma determinação geográfica precisa, existem algumas indústrias que se estabelecem em zonas rurais e outras em zonas urbanas, dependendo muito do contexto. O mesmo se aplica à agricultura florestal e ao uso da terra, uma vez que são mais típicos de ambientes rurais do que urbanos, digamos que as cidades participem apenas de uma quantidade de áreas que ocupam e expandem através anos, mas que, no entanto, não é significativo em comparação com outros grandes usos do solo.

Na verdade, o que vamos analisar nas cidades, além das melhoras muito substanciais já incluídas, são as atividades de gestão de resíduos sólidos, tanto pelos diferentes processos de captura e cálculo das emissões pelos aterros sanitários e lixões ou também pelo o tratamento de águas residuais. Acredito que para estas situações as cidades possuem um grande tema.

Em relação aos aspectos energéticos, somente estivemos trabalhando naquilo que são Emissões Fugitivas, que é parte daquilo que chamamos de Upstream e também nas mudanças das emissões por parte dos veículos, na geração de energia – que se mantiveram em posições muito similares das que tínhamos nas guias de 2006. Ou seja, não foram submetidas a uma reestruturação ou a uma revisão de suas metodologias.

Qual é a importância para o município de realizar um inventário de emissão de gases de efeito estufa?

De fato, os inventários desempenham um papel muito importante porque nos ajudam a obter estimativas muito transparentes e confiáveis e que precisam, na medida do possível, que sejam comparáveis entre os países e que sejam elaboradas com uma metodologia consistente. Este conjunto de atributos dos inventários fazem com que, para poder quantificar o trabalho específico de mitigação de mudanças climáticas, os inventários desempenhem um papel fundamental.

Tendo a consciência de que as mudanças climáticas são um dos objetivos de desenvolvimento sustentável, vamos observar que os inventários também nos ajudam a ver, uma vez que utilizam dados de outros setores para ver também como estamos progredindo em outras áreas relacionadas, como por exemplo, as de gestão de resíduos sólidos, a gestão de resíduos líquidos e também, os importantes, os objetivos de desenvolvimento de desenvolvimento sustentáveis sobre as cidades.

Quais são os maiores desafios a ação climática nas próximas décadas?

Os desafios que enfrentaremos nas próximas décadas, especialmente a partir do próximo ano de 2020, é que descobriremos que temos um grande número de problemas, principalmente sociais, sem dúvida também econômicos, que estão profundamente ligados entre si, que em muitos casos entra em conflito com a ação climática potencial.

Às vezes, existe uma vontade muito boa de avançar, mas justamente por causa de problemas sociais e econômicos, governos, empresas e até comunidades são forçadas a priorizar mais aspectos de um conjunto de situações que estão ligadas a outros problemas. Sem dúvida, para resolver um problema ambiental como a mudança climática, precisamos trabalhar em todas as áreas: social, econômica e institucional; tem que fazer parte do conjunto de atividades que precisamos realizar para resolver esse problema ambiental.

No século XX, eles tentaram agir com soluções fragmentadas e não integrais e geraram uma situação muito difícil e conflituosa, pois quando começamos a avançar em uma área, temos problemas que vêm de outras áreas. Precisamos de uma ação conjunta que leve em consideração, sobretudo, aspectos sinérgicos e antagônicos das ações que realizamos na adaptação e mitigação das mudanças climáticas.

Gostaria de fazer algum comentário final?

Em primeiro lugar, gostaria de reiterar minha gratidão pelo convite e por poder alcançar seu público. Também gostaria de afirmar que a guerra contra os impactos negativos das mudanças climáticas está sendo travada nas cidades. As cidades são os lugares que receberão a maior quantidade de impactos das mudanças climáticas. Os impactos negativos e, ao mesmo tempo, o consumo de energia e pela solução relacionada ao transporte, o consumo pelos habitantes e as opções tomadas para fazer esse consumo, bem como a gestão de resíduos sólidos e líquidos, são onde se encontrará o campo de batalha para a solução dos problemas nos próximos anos (não temos muitas décadas pela frente, sabemos que devemos chegar a uma economia de carbono neutro antes de meados do século XXI), portanto creio que as cidades são o ponto chave e o local para definir se alcançamos uma solução para estes problemas, ou se os nossos problemas serão maiores que nós.

Muito obrigado!

 

*Eduardo Calvo é copresidente do Grupo de Trabalho de Inventários do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e Professor da  Universidad Nacional Mayor de San Marcos de Lima, Perú.

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